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Opinião | Gente Melancolicamente Louca

por Alexandra, em 30.11.16

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Título: Gente Melancolicamente Louca

Autor: Teresa Veiga

Editora: Tinta-da-China

 

Penso que nunca dei cinco estrelas a um livro de contos. Sou muito esquisita com este género literário, com a rapidez com que tudo se processa e com os fins, geralmente, abruptos. Tem de haver uma grande maestria do escritor para me encantar, algo que já é complexo de alcançar num só conto, o que fará num livro repleto deles. Apesar da minha dificuldade assumida com os contos, problema meu, acredito, tenho-me forçado a ler mais livros deste género, porque me fascina a arte associada à sua construção. Quero saber mais, quero estar mais ambientada a este mundo dos contos, e tenho a certeza que Gente Melancolicamente Louca foi uma escolha muito acertada.

 

Fiquei deveras fascinada com o talento de Teresa Veiga como contista, embora já suspeitasse que fosse muito boa. Adorei a sua escrita, elaborada e eloquente. Contudo, tal não foi suficiente para me perder de amores pelos vários contos que fui lendo, embora deva realçar que não houve um único que não tenha gostado de todo, o que raramente me acontece com livros de contos. Tal deve-se, sem dúvida, à forte componente feminina ao longo de todo o livro e à escrita irrepreensível de Teresa Veiga.

 

Os meus contos preferidos foram O dia em que Sherlock Holmes foi salvo pelo Capitão Fracasse e Natacha.

Por temperamento sou reservada e pouco sociável, no sentido em que me basto a mim própria e nunca senti necessidade de ter amigas que servissem de confidentes ou meras caixas-de-ressonância dos meus pensamentos e preocupações.

 

Pontuação: 3,5

 

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Estou a ler: Gente Melancolicamente Louca

por Alexandra, em 23.11.16

 

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Os meus últimos dias têm sido muito preenchidos, mas felizmente consegui tirar uns momentos para começar mais um livro para o projecto Ler os Nossos. Desta vez, um livro de Teresa Veiga, também uma estreia nas minhas leituras como Isabela Figueiredo, com um título absolutamente fantástico e magnético que já queria ler há alguns meses, mas que demorou a fazer parte da biblioteca cá de casa.

 

Trata-se de um livro de contos, género literário com o qual tenho uma relação de amor-ódio. Ou me identifico muito pouco com o conto e acaba por me ser indiferente, ou adoro-o de paixão, mas o final deixa-me um sabor agridoce de "não pode ser só isto, preciso de mais". Após ter lido quatro contos, devo confessar que ainda não me apaixonei perdidamente por nenhum, mas tenho de reconhecer que Teresa Veiga escreve magistralmente bem. A sua escrita é bela, majestosa, magnífica, um tesouro para os olhos de qualquer leitor, quero crer. Estou muito curiosa com a leitura dos próximos contos, e desejo sinceramente que pelo menos um me enlouqueça de amor, não fosse eu melancolicamente louca.

 

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Opinião | A Gorda

por Alexandra, em 21.11.16

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Título: A Gorda

Autor: Isabela Figueiredo

Editora: Caminho

 

A Gorda, o primeiro romance de Isabela Figueiredo, é, como já adivinhava, uma pequena pérola no actual panorama editorial português. Isabela escreve com uma crueza fascinante, dando voz a Maria Luísa, mulher que nos arrebata e desconcerta ao longo do relato que faz da sua vida. Apesar desta crueza, que não é mais do que o fruto da forma de ser de Maria Luísa, prática, desenrascada, senhora de si, conseguiu fazer-me emocionar genuinamente e, sinceramente, não me consigo recordar da última vez em que tal coisa me aconteceu.

 

É um romance sobre as dificuldades que esta mulher, gorda, encara ao longo de diversos períodos da sua vida, sendo humilhada, traída, machucada, mas é também um romance sobre a vida e a morte, sobre o sofrimento, independentemente da sua causa.

Eles riem enquanto caminho, eles falam sozinhos, "ó orca, grande fúria dos mares, já comeste hoje alguém?!" Riem. Divertem-se, pueris e crus. Falam sozinhos. Mas a baleia ouve. Não querendo, as frases ficam inscritas no mesmo cérebro que as rejeita. A baleia. A orca. O monstro.

 

Eu era uma miséria de mulher, um torpor, uma dor que já nem dói. Um farrapo de lã que já não aquece. Já não pretendia esconder-me do que tinha sido e fingir uma perfeição que não me assentava. Quebrara-me de novo em fragmentos, como se quebra o vidro e as pessoas. E de cada vez que me quebrava não era possível voltar ao que era antes.

 

É também uma excelente retrospectiva do que aconteceu aos portugueses que tinham a sua vida construída em países africanos de domínio português, antes do 25 de Abril, e que se viram depois obrigados a deixar a sua morada, mudando-se de armas e bagagens (os que tiveram sorte) para a Metrópole. 

Nesse dia percebemos que a nossa casa na Matola jamais caberia na de Almada. Aquela não podia repetir-se. Não era possível reconstituir o cenário do crime. Já não se tratava apenas de uma ideia e de um discurso sobre a perda do Império na terra e no céu, mas da sua materialização.

 

Ao longo das várias divisões da casa na Cova da Piedade, assistimos a vários episódios da vida de Maria Luísa, relacionando-se com a mãe, o pai, Tony (Antónia) e David, para mim, os mais importantes. Também achei muito interessantes todas as referências políticas, sociais e tecnológicas que foram incluídas ao longo dos intervalos temporais que se iam descrevendo em cada uma das divisões da casa, já que a história não segue uma trajectória temporal directa.

Eu creio nas pessoas. Ela desconfia. Ela é sábia, mas eu julgo saber mais. Fui à escola, aprendi línguas, literatura e história. Sou deste tempo, e ela vive presa a superstições. Ela é paciente e firme; eu, arrebatada e arrogante.

 

Recomendo, sem qualquer dúvida, a sua leitura.

 

Pontuação: 4

 

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Próximas leituras | Encomenda

por Alexandra, em 18.11.16

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Os próximos livros que pretendo ler no mês de Novembro são de José Saramago e Teresa Veiga, para o projecto Ler os Nossos, sendo que com a leitura de Terra do Pecado darei finalmente início ao projecto Ler Saramago, algo que já estava a adiar há bastante tempo. Nunca li nada de Teresa Veiga e tenho muita curiosidade em fazê-lo, especialmente devido a este fantástico título.

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Esta semana recebi uma encomenda com estes quatros livros (e ainda está um em falta), todos de autores que nunca li e que fui vendo repetidas vezes em pesquisas que fiz, na tentativa de chegar a uma lista de livros essenciais, ou de leitura obrigatória (nem sempre estes títulos em concreto, mas destes autores). Gosto muito deste tipo de listas, mas há tanta informação sobre o assunto que em vez de chegarmos a 100 ou 200 livros e pararmos, ficamos com uma lista que ultrapassa largamente este número, dividida entre autores intemporais, autores contemporâneos, autores portugueses, escritoras de leitura obrigatória, e que parece que irá perpetuar-se até chegarmos ao "fim da internet". Enfim, um mar de informação que nos deixa em extâse, afinal é o nosso amor, e em pânico, porque não haverá tempo nem possibilidade (financeira, editorial, etc.) para tudo.

Há cerca de um mês, depois destas pesquisas mais ou menos aleatórias, comecei a fazer um trabalho de investigação baseado no livro 1001 Books You Must Read Before You Die (1001 Livros para Ler Antes de Morrer), baseando-me na lista em inglês, através da qual procurei as edições correspondentes em português, título, editora, escritor, nacionalidade, género, link no goodreads, lido/não lido, na minha biblioteca pessoal ou não. O ideal seria ler todos os livros desta lista, embora sejam imensos e seja coisa para demorar uns bons anos, mas sobretudo alargar o meu conhecimento a nível literário. Há tanta coisa que ainda desconheço.

Penso que tenho sensivelmente um quarto do trabalho feito, mas tenho tido alguma preguiça em adiantá-lo nas últimas semanas. Além de ser um trabalho moroso, torna-se demasiado mecanizado por vezes e não quero que seja uma obrigação. Tem de ser algo para ir fazendo quando tiver vontade, que me dê prazer em descobrir, que me faça enervar por tantos ainda não terem sido editados em Portugal. Espero este fim-de-semana adiantar mais alguns títulos e pode ser que quando acabar nasça aqui um projecto para concretizar até morrer.

 

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Estou a Ler: A Gorda

por Alexandra, em 17.11.16

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Este foi, para mim, o típico livro que, assim que começam a surgir notícias divulgando a sua sinopse e anunciando que o seu lançamento está para breve, sinto de imediato a necessidade de o ter nas minhas mãos, de saborear a sua escrita, os seus detalhes, adivinhando que será um pequeno tesouro num oceano vasto de obras e escritores. Comprei-o no fim-de-semana passado e comecei a ler esta semana para o projecto Ler os Nossos e para o desafio #leiamulheres de que tanto gosto.

 

Após mais de 100 páginas lidas, posso afirmar que está a corresponder às expectativas. Isabela Figueiredo escreve de uma forma muito crua, penso que seja este o termo mais adequado, algo que sinto falta de ler mais vezes. Maria Luísa dá a voz a este romance, onde narra a sua vida, começando por nos apresentar a porta de entrada (presente), após ter feito uma gastrectomia que a fez perder quarenta quilos. Deixou de ser gorda, portanto. Depois de feitas as apresentações, prossegue para as restantes divisões da sua casa (literalmente) recuando no tempo, para 1975, quando veio de Moçambique, sem os pais, estudar para um colégio na Lourinhã e seguindo daí em diante. Maria Luísa mostra-nos que, apesar de ser gorda e ter sofrido com isso, era muito mais do que um mero adjectivo. Estou a lê-lo devagarinho, de modo a desfrutar de todos os seus pormenores.

Sem escrita não havia uma casa onde chegar, tirar o casaco, pendurá-lo, acarinhar a cadela, levá-la à rua, regressar, alimentá-la, sentar-me no sofá e apreciar o gesto. Podia viver sem tomar banho, sem beijos, mas sem escrita não. Ninguém entendia isto, e viravam-me as costas como se referisse uma mania, um vício de gente abastada que se pode dar a luxos. "Estás maluca."

 

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Opinião | Os Passos em Volta

por Alexandra, em 11.11.16

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Título: Os Passos em Volta

Autor: Herberto Helder

Editora: Assírio & Alvim

 

Decidir que pontuação dar a este livro foi um processo demorado, pelo que escrever uma opinião sobre o mesmo, tornou-se também uma árdua tarefa. Não é um livro fácil, mas contém partes incrivelmente belas. Os Passos em Volta é um livro que claramente ou se ama ou se odeia, não há lugar para meios-termos.

 

Na revista Estante da Fnac (a partir da qual escolhi este livro para ler durante o Projecto Ler os Nossos, tal como já tinha referido aqui), este livro é descrito como estando entre o conto, o romance e o discurso autobiográfico, num livro que espelha o homem-poeta com um tom reflectivo de quem procura respostas. Referem também que Herberto Helder foi um dos pioneiros do surrealismo em Portugal e julgo que foi este o factor que determinou que a minha experiência não fosse completamente perfeita. Como já tinha referido no post sobre as minhas primeiras impressões sobre o livro, os primeiros capítulos/contos foram-me difíceis de interiorizar e compreender, acredito que sobretudo devido a esta componente mais surreal. Por melhor que fossem as minhas intenções e fascínio pelos restantes capítulos, senti um certo desapontamento nas partes em que não encontrei um sentido, mas assumo-o como uma lacuna minha, enquanto leitora.

 

Falando agora no que me deixou de coração cheio ao ler este livro: há algumas passagens e até mesmo contos inteiros deliciosamente perfeitos. Há qualquer coisa de magnético na escrita de Herberto Helder, que penso não ter conseguido captar quando li a sua poesia (uma ínfima parte, diga-se, pois até agora li apenas Servidões, publicado em 2013). Para além de alguns capítulos da primeira metade deste livro, fascinaram-me sobretudo os últimos (o tal discurso autobiográfico que citei acima), o que me fez ficar tentada a atribuir-lhe as cinco estrelas. Puro deleite.

Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu - simples, tenebrosa - entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade. Talvez houvesse uma irónica alegoria em nós dois ali sentados diante dos belos copos frios, compreendendo ambos tão facilmente o que nos acontecia e iria acontecer que não tínhamos pressa. Poderíamos morrer ali mesmo. Esperávamos.

Sim, deite mais brandy. Sou um bêbado, claro. O que esperava? Que fosse um apóstolo, um assassino, um político, um anjo? Não, sou apenas um bêbado. Mais dois ou três dedos da bebida impura, como você diz nessa tão pitoresca linguagem moral. Não estou a pedir-lhe o amor ou a glória. É brandy e, repare, brandy de terceira categoria. Não é amor, mesmo de terceira categoria. Nem a glória de terceira categoria, coisa suficiente para nos sentirmos muito perto de Deus. Também já tive o amor. O que não teve a gente neste universo tão pródigo? Era arrebatador.

 

Contudo, não consigo fazer um balanço completamente perfeito desta leitura para lhe atribuir a pontuação máxima. Posso sim dizer que esteve bastante perto disso e que se fosse mais dada ao surrealismo, seriam cinco estrelas, sem qualquer dúvida. Não é um livro que recomende a todos os leitores, pois julgo que é necessária alguma maturidade para o ler, coisa que eu própria ainda não considero que tenha em abundância.

 

Pontuação: 4,5/5 (não gosto de dar meias-estrelas, mas neste caso é mesmo necessário)

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Estou a Ler: Os Passos em Volta

por Alexandra, em 08.11.16

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O primeiro impacto com esta obra de ficção de Herberto Helder não foi tão bonito como imaginei. Estava com algum receio, confesso, mas não esperava ficar completamente à deriva nos três primeiros capítulos.

 

Três curtos capítulos, para mim, tão complexos de decifrar. Tive de reler constantemente diversas frases, parágrafos, diálogos, em busca de um sentido, a maioria das vezes em vão. Comecei a sentir um ligeiro receio de que o livro fosse todo assim, não tencionava desistir, mas adivinhava uma constante luta que me impossibilitaria de desfrutar da leitura.

 

Passei, quase que instantaneamente, a uma fase de tristeza imensa porque, provavelmente, deveria ser um problema meu. Contudo, eis que ao quarto capítulo a magia acontece. No quinto e no sexto, continua a espalhar-se. Uma mudança subtil e, ao mesmo tempo, tão dramática, que preciso de ler desesperadamente os próximos. Isso e rezar para que não volte a tornar-se num conceito abstrato, de onde não lhe consiga desvendar um sentido, nem que seja só meu.

 

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A revista Estante deste Outono tem um artigo que reúne os 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos. Esta lista de 12 livros foi escolhida por um júri constituído por Carlos Reis, professor e ensaísta, Isabel Lucas, jornalista, Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora, e Pedro Mexia, crítico literário e assessor cultural do Presidente da República, sendo que as obras incluídas teriam de ser de ficção e os autores de nacionalidade portuguesa.

 

De entre os 12 livros escolhidos, destaco A Sibila (Agustina Bessa-Luís), Livro do Desassossego (Fernando Pessoa), Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio), O Ano da Morte de Ricardo Reis (José Saramago), Os Cus de Judas (António Lobo Antunes), Os Passos em Volta (Herberto Helder) e Sinais de Fogo (Jorge de Sena). Como sou um bocado a atirar para o obcecada com listas, esta passou imediatamente a fazer parte da minha lista de listas, passe o pleonasmo, e nada melhor do que começar a ler um dos livros da mesma.

 

Como são autores nacionais, lembrei-me automaticamente do projecto da Cláudia, Ler os Nossos, por isso decidi ler este mês Os Passos Em Volta, de Herberto Helder, e participar no projecto.

 

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