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Opinião | A Vida no Campo

por Alexandra, em 23.01.17

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Título: A Vida no Campo

Autor: Joel Neto

Editora: Marcador

 

A minha curiosidade a respeito de Joel Neto, nascido na ilha Terceira, iniciou-se mal comecei a ler críticas maravilhosas sobre o seu romance Arquipélago e, mais tarde, também sobre A Vida no Campo. Claro que as minhas artérias, veias e capilares açorianos começaram logo a pulsar a um ritmo alucinante face à possibilidade de me reencontrar no que Joel Neto passava para o papel. Ainda não tendo lido Arquipélago, mas terminada a leitura de A Vida no Campo, sei que comecei pela obra certa. Esta foi a abordagem ideal à escrita de Joel Neto, que tanto me fez recordar e emocionar.

 

Ao longo de quatro estações, Outono, Inverno, Primavera e Verão, Joel Neto mostra-nos como foi regressar à ilha onde nasceu e à casa onde passou os primeiros anos da sua vida, até vir estudar para Lisboa, embora, na altura em que começa este livro-diário, Joel já se encontre há cerca de dois anos a viver na ilha Terceira com a mulher Catarina, o cão Melville e, mais tarde, a cadela Jasmim.

Tinha acabado de chegar, ao fim de duas décadas de viagem. Nunca deixara de comer alcatra (...) mas comê-la na cozinha da infância, servida desta vez não a um filho de visita mas a um filho regressado, foi como começar de novo. Sabia-me a terramotos e a redenção.

 

Em A Vida no Campo fazemos uma visita à infância, adolescência e início da vida adulta do escritor, ao mesmo tempo que nos são relatados episódios do seu dia-a-dia, essencialmente no Lugar dos Dois Caminhos, na Terra Chã, e as relações que mantém com as gentes da terra. Gostei especialmente dos relatos da magnífica relação que teve com o seu avô açoriano (muito especial para mim, que não cheguei a conhecer o meu). Dei por mim, diversas vezes, a deixar cair umas lágrimas aqui, outras acolá, perante a magnífica experiência que Joel Neto me proporcionou ao regressar a uma ilha que não a minha, mas, no fundo, à terra onde pertenci e com a qual me sentia profundamente desligada. 

Na cidade, receber o carteiro é um incómodo. Uma pessoa tem de levantar-se da cadeira, para abrir a porta, e já é uma maçada. Aqui há sempre uma espera, uma suspensão no tempo - uma expectativa. Fazem-se conjecturas sobre a hora em que o carteiro chegará. Cultivam-se sonhos quanto ao dia em que trará a encomenda. Eu vejo nisso uma beleza.

 

Uma casa na aldeia está sempre em obras porque está sempre em risco. A natureza vem por ela dentro. A hera trepa as paredes. O bicho-sapateiro invade-a por baixo das portas. A humidade e o caruncho corroem-na devagar, para mais nestas ilhas. Uma casa na aldeia está sempre em obras porque essa é a sua maneira de sobreviver. A nossa. Habitamos um território de fronteira, e há poucas coisas tão viciantes como essa.

 

Não é que às vezes não haja estragos. Mas, como sempre, este povo acordará no dia seguinte e olhará para o que estiver desabado e reconstruirá aquilo que tiver de ser reconstruído e cozinhará uma alcatra para o jantar, que comerá a rir.

 

Achando de antemão que os açorianos irão ligar-se como ninguém a A Vida no Campo (sem qualquer pretensiosismo, só um bocadinho, vá), acredito que qualquer pessoa que já tenha tido algum contacto com a vida rural e/ou insular se irá agarrar com força a este livro e guardá-lo com carinho durante muito e muito tempo. Os restantes, bem, esses ficarão com vontade de ter contacto com a vida no campo o mais brevemente possível.

 

Pontuação: 5

 

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Filmin | É na Terra Não é na Lua

por Alexandra, em 03.12.16

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Demorei algum tempo a terminar de ver o filme É na Terra Não é na Lua, de cerca de três horas, sobre a ilha do Corvo. Como açoriana, era um documentário que me interessava ver há algum tempo, pelo que estar disponível no Filmin foi perfeito para finalmente poder concretizar este meu desejo.

 

Fiquei agradavelmente surpreendida e foi emocionante reconhecer traços comuns entre a população açoriana, as expressões, as crenças, as preocupações, mas que naquela pequena ilha se multiplicam em larga escala porque há dificuldades geográficas, tecnológicas e meteorológicas que, conjugando-se, ou não, tornam a vida naquele lugar mais difícil do que o que era suposto nos nossos dias. Apesar disso, não deixam de ser pessoas optimistas, de prosseguir com as suas vidas e com os seus trabalhos mais típicos do campo, que a maior parte da população portuguesa das grandes cidades já não conhece, nem chegará a conhecer. Nesse sentido, parece-me ser um documentário deveras importante de assistir, porque em alguns vai recordar memórias já perdidas mas que se reavivam facilmente e nos deixam os olhos brilhantes de nostalgia, e noutros vão mostrar algo que provavelmente nem sonham que se passa naquele pedaço de terra distante. É importante que se tenha noção das dificuldades que a insularidade pode trazer, em particular, àquela população de menos de 500 pessoas que vivem numa ilha de 6,5km de comprimento por 4km de largura, em pleno Oceano Atlântico.

 

Foram momentos mais que perfeitos (vi o documentário ao longo de vários dias), onde me foram mostrados tranquila e demoradamente a vegetação, o mar, umas vezes escrespado, outras estanhado, a ventania, os nevoeiros e chuvas que parecem intermináveis, as gentes e os seus ofícios, pensamentos e recordações. Os animais, a vila, o Caldeirão.

 

Recomendo imenso, mas têm de ir preparados para a sua demora. Passada a primeira hora, se tanto, vão perceber quão essencial é. Parabéns ao Gonçalo Tocha e à restante equipa por este magnífico trabalho.

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