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Título: Como Uma Flor de Plástico Na Montra de Um Talho

Autor: Golgona Anghel

Editora: Assírio & Alvim

 

A escrita de Golgona Anghel aliada às temáticas que aborda deixam-me à beira do delírio porque fico, muitas vezes, cheia de vontade de ter escrito alguns dos seus poemas (a maioria). Quando a leio, transporto-me imediatamente para o interior dos seus poemas, numa busca incessante pelo que está escrito nas suas linhas e entrelinhas. Não sendo o meu preferido dos dois, é quase tão bom como Vim Porque Me Pagavam. Se tiverem oportunidade de ler a poesia de Golgona Anghel não a percam, depois contem-me como foi.

 

TUDO O QUE NÃO É LITERATURA ABORRECE-ME -
queixava-se um checo muito conhecido.
As nossas vidas, aliás, deviam acontecer sempre no futuro,
onde, no fundo, sucedem todos os romances.
O nosso estilo teria a nitidez dos tratados científicos
e a força da descrição de uma batalha -
embora os críticos tentassem
transformar tudo isto num relatório criminal
ou no argumento para um filme de Domingo à tarde.
O Eduardo Prado Coelho era capaz de fazer isso.

Mas é preciso fugir ao máximo dos museus de cera,
perseguir os funcionários públicos do senso comum,
evitar que as mulheres feias tenham filhos.
Aliás, é urgente matar toda a gente que tem fome.
Por isso, não me venhas com xaropes e bancos alimentares.
Não me trates as doenças.
Não me levantes a mão.
Vem, vem apenas,
come as you are
- embora seja tarde.

Vem para esta sala de baile com portas cheias de musgo
e vozes molhadas em tabaco.
Vem passar uma noite nos seus cantos húmidos
onde coronéis e generais
levantavam as saias à história.

Já tirámos os cavalos,
já limpámos as trincheiras.

Vem ralar na minha pele arrepiada
a cor pálida da lua
como se fosse a casca de um limão.

Vem sem falta -
o palco está vazio,
a sala cheia.
Com o passo lento das derrotas,
um macaco vestido de Shakespeare
conduzir-te-á até ao último acto.

 

Pontuação: 4

 

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Opinião | Vim Porque Me Pagavam

por Alexandra, em 25.04.17

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 Título: Vim Porque Me Pagavam

Autor: Golgona Anghel

Editora: Mariposa Azual

 

Golgona Anghel é uma das minhas poetisas preferidas e devo confessar que, tendo relido ambos os seus livros de poesia, já estou a ressacar por mais um livro seu. É incrível como uma mulher nascida na Roménia escreve tão bem em português, recomendo vivamente.

 

Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.

Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.

Limpa
mas mal vestida
- olhai -
sou o novo modelo para o fracasso.

 

Pontuação: 5

 

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Títulos: Curso Intensivo de Jardinagem e Sorte de Principiante

Autor: Margarida Ferra

Editora: & etc

 

As minhas opiniões sobre livros de poesia resumem-se, na maioria das vezes, a simplesmente transcrever um ou alguns dos meus poemas preferidos. Já tinha lido estes dois livros de Margarida Ferra há alguns anos atrás e relê-los foi uma experiência muito agradável. Não entram para os preferidos da vida porque não me deixam o coração a palpitar de emoção, mas há alguns poemas que andam muito perto disso. Ficam os meus preferidos abaixo, por ordem.

 

Sala da frente

Do sofá ainda tão gasto

entre as duas portas,

agora parecem mais:

todos no chão da sala,

volumes em resma,

tamanhos variáveis,

desalinhados,

no lugar dos tacos regulares,

escondem-nos.

 

Os livros todos, o chão da sala,

pequenas torres impressas,

legos impossíveis:

os que foram

desconhecidos nesta morada,

as dádivas secretas,

o sítio das palavras que não regressaram.

No canto superior direito,

o índice dos teus dedos,

a tua sombra em tantas páginas.

 

Morada

Habitamos

uma casa quando

a sombra dos nossos gestos

fica mesmo depois

de fecharmos a porta.

 

Pontuação: 3

 

*

 

7.

Alimentar animais:

estender a mão aos pássaros,
passar incólume pelas pessoas

ainda alguém que pouse
para o nosso cuidado gratuito
sem alergias, nojo ou lágrimas.

 

20. Não te iludas

Não te iludas, não te desiludas,
não há ninguém do outro lado
da linha, não precisas de bateria
para te ligarem,
nunca serás tu a pagar rodadas,
és invisível e não vale a pena
tentares gostar de vinho.
Não te iludas,
nada te tenta como uma romã antes
do tempo delas, frésias em dezembro
podem ser comoventes
mas não são frésias ou não é dezembro,
ninguém tas estende.
Se arrancam pétalas dos cabelos das crianças,
não são tuas. Não te iludas,
acende a luz. 

 

Pontuação: 3

 

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Março | TBR

por Alexandra, em 02.03.17
O mês de Março está intimamente associado ao universo feminino, existem muitas iniciativas e projectos interessantes e necessários, a prova disso são iniciativas como o Março Feminino, da Sandra, que aproveito para destacar. Para além do Dia Internacional da Mulher (8 de Março), neste mês celebra-se também o Dia Mundial da Poesia (21 de Março). Desta forma, penso que nada melhor do que um projecto literário para o mês de Março que associe mulheres e poesia: #lerpoetisas.
 
Inicialmente tinha pensado em ler apenas poetisas portuguesas, mas, entretanto, deparei-me com cinco livros em pdf de autoras brasileiras e decidi incluí-los também. Uma vez que a maior parte dos livros são pequeninos, julgo que será um mês produtivo. Deixo-vos a minha TBR "física" para o mês de Março, onde pretendo ler dois livros que transitam directamente da TBR de Fevereiro: O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, e Manual para Mulheres de Limpeza, de Lucia Berlin, sendo que os restantes são apenas poesia no feminino.
 

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Golgona Anghel (n. 1979), nasceu na Roménia, mas vive há vários anos em Portugal. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (2003) e doutorada em Literatura Portuguesa Contemporânea (2009).

Vim porque me pagavam (2011)
Como uma flor de plástico na montra de um talho (2013)
 
Claúdia R. Sampaio (n. 1981), dedicou-se ao ballet, ao teatro, à pintura, ao cinema e à escrita de ficção para TV, sendo a poesia a sua forma preferida de comunicação
Ver no Escuro (2016)
 
Adília Lopes (n. 1960), poetisa, cronista e tradutora portuguesa.
Manhã (2015)
 
Maria Teresa Horta (n. 1937), escritora e jornalista conhecida como uma das mais destacadas feministas portuguesas, estreou-se no campo da poesia em 1960.
Anunciações (2016)
 
Margarida Ferra (n. 1977), trabalhou numa pizzaria, num jornal, numa galeria de arte contemporânea, em duas livrarias e foi responsável pela comunicação da Quetzal Editores e, mais tarde, do Grupo BertrandCírculo.
Curso Intensivo de Jardinagem (2010)
Sorte de Principiante (2013)
 
Ebooks:
 
Martha Medeiros (n. 1961), publicitária, jornalista, escritora e poeta brasileira. A sua obra compreende poesia, crónicas, romance e contos.
Poesia Reunida (1998)
 
Hilda Hilst (1930-2004), poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada como uma das mais importantes vozes da língua portuguesa do século XX.
Baladas (compilação de três livros de poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira(1951) e Balada do festival (1955)
 
Adélia Prado (n. 1934), professora formada em Filosofia, poetisa e contista brasileira ligada ao Modernismo.
O Coração Disparado (1978)
 
Bruna Beber (n. 1984), poetisa e escritora brasileira que colaborou durante os anos 2000 com diversos sites e revistas impressas de literatura, poesia e música.
Rua da Padaria (2013)
 
Angélica Freitas (n. 1973), poetisa e tradutora brasileira, formada em jornalismo.
um útero é do tamanho de um punho (2012)​
 

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Fevereiro | Resumo

por Alexandra, em 28.02.17

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Li três livros, todos escritos por mulheres e de não-ficção:

Ensaios sobre Fotografia, de Susan Sontag (3 estrelas)

A Miúda da Banda, Kim Gordon (4 estrelas)

Em nome da filha, Carla Maia de Almeida (4 estrelas)

 

Fevereiro foi um mês fraco em termos de número de livros lidos (em relação aos meus padrões habituais), mas que acabou por ser compensatório face à qualidade dos mesmos. Foi um mês de mudanças: de trabalho, de rotinas e de disponibilidade, mas, apesar da tristeza, não fiquei completamente desiludida porque sei que com esforço consigo voltar à normalidade e porque grande parte dos meus tempos livres foram dedicados a ver os filmes nomeados para os Óscares, num total de 16 (o meu melhor mês cinematográfico de sempre), aos quais se soma o magnífico Mustang.

 

Li apenas mulheres como tinha estipulado para este mês e, dado o caos em que se tornou a minha vida durante este pequeno mês, mas longo em novidades e adaptações, foi impossível dedicar tempo a Proust. Não pretendo desistir, mas sei que após uma pausa tão grande vai ser difícil recomeçar no ponto onde o deixei, pelo que pondero seriamente recomeçar a sua leitura - sem dramas.

 

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Opinião | A Miúda da Banda

por Alexandra, em 28.02.17

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Título: A Miúda da Banda

Autor: Kim Gordon

Editora: Bertrand

 

Há muito tempo que desejava ler A Miúda da Banda pelos mais variados motivos, dos quais se destacam o meu gosto por Sonic Youth e o facto de tratar-se de um livro de não-ficção escrito por uma mulher, Kim Gordon, na condição de pioneira entre as mulheres do rock, mas que é muito mais do que isso.

 

No meu íntimo já suspeitava que ia gostar bastante deste livro, mas depois de começar a lê-lo tive a certeza. Adorei a estrutura e organização do livro, a forma intimista, aberta e transparente com que Kim aborda os mais variados assuntos, alguns sensíveis, outros nem tanto, mas nenhum desnecessário, e as fotos, maravilhosas.

 

Estava a ler, na altura, um livro chamado "Mother Daughter Revolution", sobre a primeira onda de feminismo dos anos setenta. O livro foca-se no facto de o feminismo não conseguir tratar a relação entre mães e filhas por causa da ênfase na fuga do lar. Não o terminei - quem é que consegue ter tempo ou energia quando acabou de se tornar mãe? - mas lembro-me de o livro falar da pressão de se ser perfeito e agradável para toda a gente que se abate sobre as mulheres, pressão essa que acaba por ser projectada nas suas filhas. Nunca são suficientemente boas. Nenhuma mulher consegue ultrapassar aquilo que tem de fazer. Não é possível ser-se tudo: uma mãe, uma boa parceira, uma amante e, simultaneamente, uma participante local de trabalho. "Little Trouble Girl" é sobre o querer ser-se visto pela pessoa que se é realmente, sobre ser-se capaz de expressar essas partes de nós mesmas as que não são de "boa menina", mas que são, também, reais e verdadeiras.

 

Pontuação: 4

 

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Opinião | Em nome da filha

por Alexandra, em 27.02.17

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Título: Em nome da filha

Autor: Carla Maia de Almeida

Editora: Fundação Manuel dos Santos

 

Pouco tempo depois de ter visto a referência da Cláudia a este livro, encontrei-o quando estava na caixa do Pingo Doce e decidi trazê-lo comigo para casa, afinal, era tão barato, escrito por uma mulher e com um tema tão relevante que se tornou impossível resistir.

 

Em nome da filha trata-se de uma reportagem com pouco mais do que cem páginas que inclui o testemunho de várias mulheres vítimas de violência doméstica, sob as mais variadas formas e feitios. Entre relatos, opiniões de profissionais e factos numéricos, é-nos mostrada a realidade em que consiste este desastre humano, que parece estar cada vez mais presente nos dias de hoje e que, apesar das medidas que vão sendo tomadas e das acções de sensibilização cada vez mais frequentes, ainda é muito longo o tempo médio em que a vítima é subjugada ao comportamento do abusador. Apesar deste livro incluir apenas testemunhos de vítimas femininas, este não é um livro contra os homens, foi simplesmente o prisma que esta jornalista decidiu escolher para escrever sobre este assunto. Recomendo vivamente.

 

Pontuação: 4

 

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Óscares | As Minhas Apostas

por Alexandra, em 26.02.17

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Melhor Filme:

Deve ganhar: La La Land / Gostava que ganhasse: La La Land, Moonlight ou Hacksaw Ridge (partindo do princípio que Hidden Figures não será capaz de ganhar)

 

Melhor Realizador:

Deve ganhar: Damien Chazelle (La La Land) / Gostava que ganhasse: Mel Gibson (Hacksaw Ridge) ou Barry Jenkings (Moonlight)

 

Melhor Actor Principal:

Deve ganhar: Ryan Gosling (La La Land) / Gostava que ganhasse: Casey Afflect (Manchester by the Sea) ou Andrew Garfield (Hacksaw Ridge)

 

Melhor Actriz Principal:

Deve ganhar: Emma Stone (La La Land) / Gostava que ganhasse: Natalie Portman (Jackie)

 

Melhor Filme Estrangeiro:

Deve ganhar: Toni Erdmann / Gostava que ganhasse: A Man Called Ove, Land of Mine ou Toni Erdmann (por ordem de preferência)

 

Opiniões Detalhadas: Arrival | Fences | Hacksaw Ridge | Hell or Hight Water | Hidden Figures | La La Land | Manchester by the Sea | Moonlight | Captain Fantastic | Elle | Loving | Jackie | Florence Foster Jenkings | Land Of Mine | A Man called Ove | The Salesman | Tanna | Toni Erdmann

 

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Cinema | A Man Called Ove

por Alexandra, em 26.02.17

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O último filme da minha lista de nomeados para ver antes da cerimónia dos Óscares que se realiza esta noite (os nomeados para as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Principal, Melhor Actriz Principal e Melhor Filme Estrangeiro, num total de 17 filmes, embora haja alguns que ainda devo ver depois) foi A Man Called Ove e não poderia ter feito uma escolha mais acertada, fechei esta maratona de filmes com chave de ouro.

 

Ove é um homem muito especial, que nos faz rir com as particularidades que o caracterizam, mas que também nos deixa de coração apertado, cheios de vontade de o abraçar. É um homem teimoso e obstinado, mas com um grande coração, metaforica e literalmente falando, como irão descobrir se assistirem a este maravilhoso filme sueco. Para além do retrato que vamos construindo de Ove desde a sua infância até à velhice, à medida que A Man Called Ove se vai desenrolando, deparamo-nos com uma história de amor muito bonita.

 

Novamente, é nos filmes simples, que retratam pessoas que se diferenciam dos demais, mas com os quais nos identificamos tanto, que encontro o maior conforto, que me rio com um sorriso de despreocupada felicidade e que me emociono perdidamente.

 

Pontuação: 10/10

 

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Cinema | Hidden Figures

por Alexandra, em 26.02.17

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Hidden Figures reúne três temas que me são bastante queridos: ciência, o papel das mulheres na sociedade em geral e na ciência em particular, e a conquista do espaço. Apesar de já ter ouvido algumas críticas menos positivas, acho que este filme é bastante completo e que a figura de Katherine Goble não ofusca Dorothy Vaughan nem Mary Jackson, pelo contrário, estas completam-se e complementam-se.

 

Para além do típico problema de não ser dado o devido crédito aos feitos de mulheres, sobretudo naquela época (1961), estas três senhoras enfrentavam ainda outro preconceito: o da cor da sua pele. Apesar de saber que é da maior importância que não nos esqueçamos da forma como eram postos de parte nas mais variadas situações, sendo-lhes atribuídos lugares separados, e do nojo com que eram tratados, assistir ao retrato desta discriminação em filmes é algo que tem um efeito muito negativo em mim, por isso, foi com particular emoção que assisti a duas cenas bastante marcantes no filme (que prefiro não desvendar).

 

Pode não ser o filme mais espectacular de sempre, nem conceptual como os críticos tanto gostam, mas é um filme que retrata perfeitamente a história destas mulheres, que existiram na vida real, e que tanta importância tiveram para a ciência, para a NASA, para as mulheres e para a humanidade. Merece muito ser visto por todos.

 

Pontuação: 9/10

 

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